4. INTERNACIONAL 21.8.13

LGRIMAS DE SANGUE, FUTURO DE SOMBRAS
O embate histrico entre os fanticos da Irmandade Muulmana e os militares linha-dura redunda em massacre no Egito. Os dois lados so fortes e a previso  de mais violncia e instabilidade.
NATHALIA WATKINS

     O requisito fundamental para um pas minimamente estvel, muito antes at de qualquer exerccio sobre democracia,  que as diferentes foras polticas reconheam a legitimidade dos respectivos adversrios. Podem se digladiar ou, simplesmente, se odiar, mas admitem o direito mtuo  existncia. Quando isso no acontece, impera o conflito permanente, embicando nos piores casos para a guerra civil. Um terrvel passo nesse sentido foi dado no Egito na semana passada, com o massacre de simpatizantes da Irmandade Muulmana, o grupo islmico que havia sido levado ao poder pela vontade do povo, manifestada nas ruas e nas urnas, e dele retirado, no mesmo processo, sem a parte do voto, evidentemente facilitado pela interveno das Foras Armadas. As imagens foram de chorar tanto por aquilo que representam quanto pelo que prenunciam. Mais de 600 pessoas morreram na quarta-feira 14, quando foras policiais comearam a esvaziar os acampamentos de manifestantes nas praas histricas do Cairo. No alto de prdios, franco-atiradores disparavam em rgos vitais do povaru na rua. O cheiro de sangue e de corpos em putrefao debaixo das mortalhas brancas, num calor infernal, espalhava em mesquitas e hospitais a notcia do maior nmero de mortos j registrado em um nico dia desde o incio dos grandiosos levantes populares da Primavera rabe, incluindo as carnificinas recorrentes na guerra civil na Sria. 
     Na sexta-feira, as manifestaes se repetiram, mas j bem menores, e a represso foi condizente: mais de noventa mortos. Se existe uma certeza no turbilho de incertezas que se tornou o Egito, o maior e mais importante pas rabe,  que o confronto no vai acabar a. A Irmandade Muulmana  forte e bem organizada. Conta com o apoio permanente de pelo menos 20% da populao e 5 milhes de militantes. Tambm tem milcias armadas, que entraram em ao no dia do grande massacre, e uma arma mais poderosa ainda, a fria de inspirao religiosa que transforma militantes comuns em candidatos a mrtir. Mesmo em desvantagem ante as foras policiais e militares, houve reaes violentas, com  ataques a policiais e incndio de prdios pblicos e, como sempre, de igrejas coptas, templos da religio crist que cerca de 10% dos egpcios continuam a teimosamente praticar. Jornalistas de vrios pases ouviram cidados comuns dizerem que a represso foi at branda e que o general Abdel Fattah al-Sisi, o comandante das Foras Armadas alcunhado de "marechal do povo" por simpatizantes, esperou demais para intervir. 
     As disputas violentas entre os generais fardados e a Irmandade existem no Egito desde a dcada de 50, quando os muulmanos radicais tentaram assassinar o ditador Gamal Abdel Nasser, ainda hoje um dolo nacional. As duas partes tinham projetos nada democrticos. Os militares viam a religio como um fator de atraso ao que projetavam como uma sociedade mais moderna, nacionalista e,  poca, socialista, sinnimo de economia estatizada e loteada. Os fundamentalistas achavam que faltava justamente mais religio, pregando a ideologia do estado islmico que depois se espalhou por outros pases muulmanos. Mudando de aliados e de alianas  da Unio Sovitica para os Estados Unidos, da guerra com Israel para uma paz nada amistosa, mas estvel , a estrutura de poder criada pelos militares sobreviveu at o incio da Primavera rabe, quando o esclerosado governo de Hosni Mubarak se desmanchou em face de manifestaes abrangentes e incessantes. 
     Os generais recuaram diante dos barbudos, que surgiram como alternativa razovel para uma boa parte dos egpcios. O conflito voltou a pegar fogo quando o prestgio da Irmandade, refletido na eleio de seu candidato, Mohamed Mursi, como presidente, logo se consumiu fora de suas esferas naturais. Protestos maiores ainda do que os originais engolfaram o Egito, e todas as foras polticas voltaram-se contra a Irmandade. Depois de fazerem um certo teatro de hesitao, os comandantes militares acabaram rapidamente com a bravata de resistncia de Mursi. No devem ter ficado nada tristes quando o confinaram numa base militar onde era submetido a cinco horas dirias de interrogatrio. A probabilidade de que os lados opostos se sentem em volta de uma mesa de negociaes e discutam civilizadamente como encaminhar uma nova transio j era pouca e se tornou quase nula diante da selvageria da semana passada. "A ordem s poder ser restaurada se os dois grupos entenderem que no conseguiro derrotar um ao outro", diz um estudioso da regio. Sami Al Faraj, presidente do Centro de Estudos Estratgicos do Kuwait. "Se o impasse permanecer, poderemos ter uma guerra civil, com repercusses em todo o Oriente Mdio." 
     A opo da Irmandade por responder com os protestos agora temporariamente reprimidos tem razes em uma viso de luta religiosa e tambm  o resultado de um clculo estratgico. Seus lderes sabem que no ganhariam uma nova eleio, mesmo que acreditassem em sua legitimidade. "O grupo certamente no confiaria em uma eleio dirigida pelos militares, temendo fraudes", diz o cientista poltico Nathan Brown, da Universidade George Washington. "Mas, mesmo se o pleito fosse limpo, eles perderiam." Com  quadros formados na Europa e nos Estados Unidos, a Irmandade tem dirigentes hbeis no idioma da manipulao poltica, no qual termos como democracia e vontade popular so usados como bombas de efeito moral para um pblico predisposto a crer em qualquer coisa que soe como antiamericanismo. Ironicamente, o governo Obama  visto por muitos egpcios como irremediavelmente comprometido com os islamistas: culpar os Estados Unidos por tudo e fugir s prprias responsabilidades  uma via de muitas mos. Agora, alm do argumento da sacralidade violada das urnas, a Irmandade tem uma montanha de mrtires para exibir. A instabilidade no Egito, um pas de 85 milhes de habitantes, faz empalidecer a anarquia e a violncia em outros lugares explosivos do Oriente Mdio, como a Sria, a Lbia e o Iraque, onde faces, cls e grupos religiosos tentam o velho e maldito caminho do extermnio mtuo.

REVOLUO QUE NO ACABA
Mesmo depois de dois anos e meio muito tumultuados, o Egito ainda no definiu o seu presente, que dir o futuro.
 11 de fevereiro de 2011
Aps dezoito dias de protestos nas ruas, o ditador Hosni Mubarak renuncia e uma junta militar assume o poder.
 18 de junho de 2012
O desconhecido engenheiro Mohamed Mursi, da Irmandade Muulmana, forma um novo governo.
 26 de dezembro de 2012
O presidente Mursi aprova uma nova Constituio, redigida apenas por muulmanos mais radicais e aprovada em referendo.
 30 de junho de 2013
Dezessete milhes de pessoas vo s ruas em vrias cidades para pedir a renncia de Mohamed Mursi e o fim de seu governo islamista.
 3 de julho de 2013
O chefe das Foras Armadas, Abdel Fattah al-Sisi, nomeado por Mursi, lidera um golpe com grande apoio popular.
 4 de julho de 2013
O juiz da Suprema Corte Adly Mansour assume governo transitrio e promete eleies. Nova onda de tumultos.


